Conto: Por que tive que partir tão cedo?


Na casa de Geraldine, tudo parecia calmo, mas algo a perturbava profundamente, sem que ela compreendesse o motivo. Ao longo do dia, a agonia em seu peito persistia, levando-a de um lado para o outro em busca de respostas para a amargura que a dominava. Nada conseguia alegrá-la; tudo parecia estranho e desconexo.

Ao retornar do trabalho, seu marido percebeu imediatamente a inquietação dela:

O que aconteceu, querida? Por que você está tão apreensiva?

Não sei, amor. Passei o dia com febre, coração acelerado e uma sensação de mal-estar no estômago. Uma tristeza imensa me acompanhou o dia todo.

Quer ir ao hospital fazer alguns exames?

Não! Eu sei que não é nada físico. Sinto que algo está prestes a acontecer, mas não consigo imaginar o que seja. Nossos filhos ainda não chegaram, e isso está me incomodando.

Vou ligar para eles, disse o marido, agora também agoniado.

Não adianta, já tentei várias vezes.

Horas depois, Ismael, o filho mais velho, chega. Geraldine corre ao seu encontro:

O que aconteceu? Por que não atendeu o telefone?

Desculpe-me, desliguei quando estava no trabalho e esqueci de ligá-lo novamente. O que está acontecendo? Por que vocês estão nervosos? Nunca os vi assim. Além disso, já aconteceu de eu esquecer de religar o celular várias vezes.

Cheguei aqui e encontrei sua mãe muito aflita, dizendo que está assim o dia todo. Ao vê-la dessa forma, também fiquei preocupado. Não conseguimos contatar seu irmão. Sabe por onde ele anda?

Não se preocupem, logo ele estará de volta. Ele disse que iria pescar com alguns amigos no Rio Alto, próximo da nossa cidade.

As horas passam, mas José não retorna, aumentando o desespero dos pais e de Ismael. A mãe exclama:

Meu Deus, por que meu filho não chega?

Ismael decide ir até o rio onde seu irmão havia dito que iria. Chegando lá, vê um tumulto de pessoas. Seu coração salta no peito, e ele se aproxima de um amigo de José, perguntando:

O que está acontecendo aqui? Onde está José?

Ele estava brincando na água e de repente desapareceu. Achamos que ele está querendo nos pregar uma peça, mas decidimos chamar os bombeiros.

Meu Deus, vocês sabiam que José tem pavor de entrar na água. Por que não o impediram?

Conhece José, quando ele quer fazer algo, nada o impede, ainda mais depois de ter bebido todas.

Ismael, ao conversar com os bombeiros, soube que, devido à hora tardia, não podiam continuar as buscas, que seriam retomadas ao amanhecer. Ele volta para casa para informar seus pais sobre os acontecimentos. Antes, passa na casa da irmã Alice e a informa, assim como ao cunhado, sobre o que estava ocorrendo. Sua irmã, desesperada, juntamente com o cunhado, decide ir ao local do incidente ao amanhecer.

Em casa, todos estão aflitos, mas Ismael tenta acalmar os pais, sugerindo que José logo sairia de alguma moita, rindo muito. fazendo suas piadas e travessuras habituais. No entanto, suas tentativas são em vão, pois o pai sai desesperado pelas ruas, enquanto Ismael se deita aos pés da cama da mãe, buscando trazer-lhe esperança, mesmo com o coração despedaçado.

A noite passa lentamente para todos, desejando que o dia amanheça rápido para encontrar José. Nas primeiras horas da manhã, a campainha toca, e Geraldine, parecendo prever o que aconteceu, corre desesperadamente para abrir a porta. Seu genro, com uma expressão de tristeza, confirma suas suspeitas. Seu olhar transmite sem palavras a terrível notícia. Ao perguntar sobre seu amado filho com o olhar aflito, ele responde afirmativamente, baixando a cabeça. Um profundo mal-estar toma conta de Geraldine, desejando que a terra se abra e a engula. Sem conter-se, ela expeliu jatos enormes de vômitos, gritando e chorando. Seu marido a abraça com força, como se quisesse extrair a dor insuportável que ambos sentiam. Ele pede que ela se acalme, mas sente como se uma espada estivesse perfurando seu coração, fazendo-o sangrar.

O pai leva o genro a uma saleta e pergunta como aconteceu.

Nosso querido José se afogou no rio. Ele não sabia nadar, como vocês sabem. Naquele momento, pairou no ar se alguém não o tivesse empurrado para dentro do rio.

Mas por que não o ajudaram a sair de lá?

Ele foi tragado por um redemoinho. Um casal distante o viu levantando os braços pedindo socorro; os amigos, pensando que ele estava brincando, não foram socorrê-lo. Só quando não voltou à margem é que ficaram preocupados e chamaram os bombeiros.

Sobre José...

José era um rapaz alegre, com bons sentimentos, mas quando bebia, suas ações extrapolavam. Como representante de uma famosa marca de roupas, viajava muito e, ao retornar, procurava os amigos que compartilhavam seu hábito prejudicial. Após as baladas e com o dinheiro esgotado, voltava para casa e se envolvia em discussões, demonstrando agressividade quando confrontado por Ismael e seus pais sobre seu caminho equivocado.

Apesar das constantes brigas, eles o amavam muito. José, sóbrio, era vibrante e alegre, não permitindo tristeza à sua volta. Adorava cantar, contar piadas e fazer palhaçadas para alegrar todos ao seu redor. Antes de partir a trabalho, seu coração se apertava, reconhecendo suas travessuras, mesmo não querendo cometê-las. Ao chegar ao hotel, ligava para a mãe pedindo perdão, muitas vezes chorando de arrependimento e prometendo não repetir suas ações.

O Funeral

O funeral ocorreu com a presença de poucos amigos e parentes, mas o ambiente estava impregnado de preces e lembranças sinceras. José não estava presente, pois logo após seu desencarne, foi conduzido por uma equipe socorrista a um hospital no plano astral, onde permaneceu em sono reparador para sua reabilitação. Ao despertar, percebeu estar em um local semelhante a um hospital terrestre, mas notou que sua cama flutuava, o que o surpreendeu. Questionando-se se estava sonhando, começou a recordar flashes do momento em que estava com seus amigos, experimentando desespero ao tentar sair da água, a falta de ar e seu debater incessante. Sentindo-se agitado, Mariza, uma bondosa enfermeira, entrou no recinto com um delicado sorriso nos lábios.

Como está, meu querido irmão?

Onde estou? Tudo aqui é tão diferente. Minha última lembrança é do desespero ao tentar sair do rio, da força que me puxava para baixo.

Você deixou seu invólucro físico e está agora em um hospital socorrista.

Quer dizer que morri?

Não exatamente. Ninguém morre, apenas muda de plano. Melhor tomar este caldo e chá para se acalmar. Depois poderá explorar este lugar. Voltarei para responder suas perguntas.

Mariza deixou José com suas dúvidas, sofrimentos e saudades dos familiares. Adormeceu novamente para fugir de pensamentos sombrios, acordando sobressaltado com uma agonia profunda e sentindo o sofrimento de seus entes queridos. Mariza aguardou o tempo necessário para que José se arrependesse de seu comportamento na vida terrena. Ao retornar, encontrou-o chorando copiosamente e o confortou com palavras de ânimo.

Tudo ficará bem! Os sofrimentos são necessários para nossa redenção. Você sofreu o suficiente; agora, precisa de coragem para superar e estudar para não recair nas tarefas que ainda terá.

Por que não fui para o inferno, como sempre aprendi? Fiz coisas ruins...

Quem disse que você não esteve no inferno? Todo o sofrimento que passou aqui foi melhor que o inferno que imaginou?

Não, a dor foi insuportável, não se compara com o que imaginava.

O inferno e o céu estão nos sentimentos que nutrimos. Vergonha, culpa, medo foram seus sentimentos, causando sofrimento. Levante-se, vamos entender suas fraquezas.

Sinto-me fraco, cansado...

Mariza canalizou energias revitalizantes sobre a cabeça de José, fortalecendo-o. Juntos, dirigiram-se a um jardim repleto de flores, proporcionando a José uma experiência que jamais havia vivenciado na Terra. Com o passar do tempo, José passou por uma transformação gradual, compreendendo a profundidade da verdade de que ninguém verdadeiramente morre; a vida é eterna. Ao trilharmos diversos caminhos, enriquecemos nossa jornada e alcançamos evolução contínua. 

No plano terrestre

Por muito tempo, na casa dos pais de José, a atmosfera era desprovida de cor, vida e alegria. Entretanto, um dia, enquanto estavam reunidos à mesa de jantar, praticando o evangelho no lar, seu pai, com os olhos marejados, compartilhou uma sensação de leveza e amor que invadiu seu peito.

Geraldine... Ismael, estou me sentindo mais leve agora. Uma onda de amor invadiu meu peito. Não imaginam a alegria que está expandindo em meu coração!

Eu também, meu querido! Percebo um alívio no meu coração. Sinto que nosso José está melhor no plano onde se encontra.

Papai, mamãe... O mesmo está ocorrendo comigo. Que sensação boa, Jesus!

Nesse exato momento, José, acompanhado de sua mentora Mariza, estava presente, observando carinhosamente o irmão e os pais. Ele irradiava amor, paz e luz sobre todos eles. Sabendo intuitivamente que a partir daquele dia, uma transformação significativa ocorreria, e a harmonia voltaria a reinar em ambos os planos.

Contudo, uma surpresa aguardava a família. Enquanto todos compartilhavam a sensação de alívio, a porta da sala se abriu suavemente, revelando a presença física de José diante deles. Seus olhos, agora cheios de paz e serenidade, encontraram os olhares incrédulos de seus familiares.

José─ sussurrou seu pai, incapaz de acreditar no que via.

Sim, pai, sou eu. Estou aqui para dizer que estou bem, em paz. E agradeço a cada um de vocês por suas preces e amor.

A emoção tomou conta da sala, lágrimas de alegria escorriam pelos rostos. Era como se um milagre estivesse acontecendo diante deles. José, agora em uma forma espiritual aprimorada, estava ali para garantir que seus entes queridos compreendessem que a vida é eterna, repleta de aprendizado e amor. A partir desse momento, a casa, antes envolta em tristeza, foi preenchida com uma luz intensa, reafirmando que o vínculo entre eles transcende a barreira entre os planos espiritual e terreno.

Eliana Bauman 

Obs.: Este conto é uma homenagem ao meu querido e estimado irmão Isaías José Ribeiro Bauman, que desencarnou nas águas do rio Artarurgio em Dezembro de 1979.

Esse conto está no livro: Antologia de contos espíritas – ArtLivro&Cia.

Comentários

  1. Nossa Li fiquei emocionada, são tantas lembranças dos que foram para o plano espiritual , algum dia estaremos todos juntos novamente 🙏🏻

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